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O Devasso de Camus


    Acho que me tornei um absurdista. Todo filósofo ponderado passa por diversas escolas ao longo de sua formação e, ao longo deste percurso, não há como desatentar-se para o existencialismo das filosofias continentais. Comentarei nesse breve ensaio-crônica-fluxo de consciência, acerca do absurdismo de Albert Camus. Em minha modesta opinião, o mais charmoso modelo de vivre sa vie!

    Numa viagem marcante de verão com os amis, no inesquecível réveillon de 2026, escutávamos, nas intermináveis horas de rodovia, "Estilo Cachorro" dos Racionais, dando atenção a cada verso dessa canção que não envelheceu nada bem. Nos anos de cancelamento, não é de se surpreender que Mano Brown sequer canta essa faixa nas performances mais recentes do grupo.

    O enredo narra uma história - na realidade, são várias: O bon-vivant protagonista; a guria que, acima de tudo, almeja a dita "sensação de poder"; e aquele que é "firmão como prego na areia" ou o chamado "beta" na cômica linguagem dos adolescentes de 14 anos do twitter e do reddit (alguns deles com suas, pasmém, mais de 30 voltas ao redor do sol).

    Penso, inclusive, que essa letra deveria ser explorada pelas autoras feministas contemporâneas, - deixo aqui o convite para Naomi Wolf, Bell Hooks, Chimamanda Adichie e Bell Hooks aprenderem português, só assim poderão escutar à banda TOP01 do RAP mundial - certamente teriam excelentes contribuições na tentativa de responder à conclusão final da letra:

"Vocês consagraram o estilo cachorro" ?!

    Não me ocuparei em responder essa questão. Além de ser fatalista ao extremo consumar que, em todas as épocas e culturas, foram elas que balizaram o comportamento masculino, não faço parte dos homens pertencentes a tal "estilo".

    Ainda assim há aqui uma discussão instigante: seja na década de 1990, no tempo dos precursores do existencialismo (século XIX com Kierkegaard, Nietzsche e o inigualável Fiódor) ou no debate atualíssimo das redes sociais, os homens sempre se ocuparam de um assunto em comum: conquitá-las!

    Citando o clássico mito de Sísifo, Camus conseguiu a enorme proeza de resignificar a desgraça. Em vez de responder à interminável inquirição filosófica sobre O Sentido da Vida, ele muda a pergunta, aceita o absurdo e se revolta não a partir, mas corroborando com a desagradável premissa: "De fato, não há sentido na vida".

    Em outros termos, Camus estabelece que não há propósito algum determinado. Procedendo deste pressuposto é possível realizar a revolta lúcida: Imaginar Sísifo feliz, superar o paradigma com uma humildade despretensiosa - a aceitação.

    E o que isso tem a ver com o amor? Com a conquista? Com a mulher belíssima e venerável, tão bem representada em "O Nascimento de Vênus" de Botticelli e "A Mulher com Brinco de Pérola" de Johannes Vermmer?

    Talvez o personagem mais icônico de Camus, Mersault, protagonista da novela "L'Étranger"/"O Estrangeiro", ilustre bem o absurdo que há no mundo. E sua amada, Marie, provavelmente fora colocada ali para auxiliá-lo nessa travessia.

    Faço aqui uma confissão: li a novela imaginando o protagonista como o personagem Tyler Durden, interpretado por Brad Pitti em "O Clube da Luta". Imagino que isso se deu pela ausência de descrições físicas e pelo estilo indiferente do protagonista.

    Seria a indiferença uma qualidade nos homens? O bon-vivant jamais revela o ponto fraco, não é, Brown? Foi assim que Sansão sucumbiu, confiando até o fim em sua dama amada. Entretanto, qual é o ponto do amor se não pudermos ter uma confidente fiel?

    Mersault não se emociona no enterro da própria mãe, não faz questão de ver o rosto da genitora pela última vez e, em todo o velório, não derrama uma lágrima sequer. Como quaisquer detalhes podem ser usados em favor das versões de advogados e magistrados, esse "detalhe" culminou em sua merecida condenação.

    Ahh, caro Mersault ... como as emoções lhe faltaram, heim!? Um breve gesto de afeição, dissimulado ou autêntico, poderia ter-lhe dado um destino absurdamente diferente.

    Não conheci Camus pessoalmente, possibilidades anacrônicas e geograficamente improváveis fizeram que nosso contato fosse unilateral. Leio suas ideias e considero-as ilustres, charmosas, cool, como poucas vertentes filosóficas conseguiram ser.

    Se a vida não tem sentido e, mais elevado do que os crentes, não faz-se necessário cometer o chamado "suicídio filosófico" e atribuir tudo ao transcendente, resta-nos aceitar-nos, não é?

    Aceitar emular o estilo requisitado? Aceitar a sinceridade e os sentimentos? E, na perspectivas delas, aguardar o personagem balzaquiano? Ter prazer com Don Juan DeMarco?


    Talvez tenhamos que passar por todos os sentimentos para continuarmos o trajeto: A cólera de Mersault, a indiferença de Tyler e a revolta lúcida de Camus.

    Chorar por uma paixão é a mais nobre prova de que ainda se está vivo. Lembrar do passado e almejar o futuro da sentido à existência. "A vida é mesmo absurda" dizia o franco-argelino, ao passo que esse brasileiro responde : C'est la vie, mon philosophe préféré!"

    Para finalizar minhas pedantes e talvez molestas citações literárias, recorro a García Marquez para encerrar com chave de ouro: "O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança".

    Assim como Sísifo, continuemos sempre levando a pedra adiante!

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