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A Biblioteca do Presidente

    "Era segunda-feira, dia 15 de setembro de um ano qualquer da nossa recente capital federal. O Presidente da República de então, um homem que chamava a atenção até mesmo de seus opositores pela sua sensatez e sabedoria acordara, um pouco atrasado é verdade, para dirigir-se ao seu gabinete no Palácio do Planalto.

    - Não estando em nenhuma missão diplomática, pôde passar o último final de semana com certa tranquilidade e calmaria, se é que a vida de um chefe de estado permite tais sentimentos, em especial, num país em que regem o caos e a polarização. -

    Desta vez, o motivo de seu atraso não se deu por nenhum bastidor escandaloso e urgente solucionado na noite anterior. Infelizmente, jogar panos quentes em situações adversas era uma de suas incumbências mais requisitadas, infeliz realidade que entristecia e deixava impotente o nosso probo e virtuoso chefe do executivo.

    Antes um idealista dos mais entusiasmados, daqueles que almejavam governar sua amada pátria com diálogo, sinceridade e muitíssima ambição em seus projetos, foi desperto para uma conjuntura absolutamente invertida. Ser o presidente de seu país era na verdade acatar muitas das ideias que nada corroboravam com o que ele próprio pensava, sancionar leis e projetos populistas e imprudentes - afinal, segundo seus assessores era importante que seu governo tivesse uma popularidade elevada e uma governabilidade razoável - e visar a reeleição no próximo pleito, vontade esta que era interesse apenas de seus aliados políticos ávidos por poder e gloríola.

    A extensão de seu sono, preenchido por sonhos quase utópicos, se deu pelas incansáveis horas que o nosso protagonista passou na biblioteca do palácio presidencial. Cansado de assistir aos telejornais, ler as edições impressas dos principais veículos do país e ouvir bravatas de opositores ignorantes, quando não munidos de má fé, sua noite de domingo foi um raro momento, ônus do cargo, de contemplação e meditação.


Biblioteca do Palácio do Alvorada - Residência Oficial do Presidente da República Federativa do Brasil


    Aquelas obras clássicas escolhidas a dedo pelos célebres escritores que idealizaram o ilustre acervo, dentre eles: Manuel Bandeira, Carlos Drummond Andrade, Edson Nery da Fonseca e tantos outros gênios eram, sem sombra de dúvidas, uma companhia bem mais elevada do que as que o presidente havia se acostumado. Exaurido de lobistas, políticos e maus jornalistas, aquela biblioteca aparentava ser um oásis em meio ao inferno.

    Assim como na noite anterior - havia sido a primeira-dama  a responsável por levar o presidente pro conforto do quarto presidencial - a eminente, polida e discreta mulher manifestou mais uma vez o carinho que só ela oferecia a vida dele, desta vez citando a saudosa citação de Jorge Luis Borges - "Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca" em sua saudação matinal.

    Discutiram, ainda na cama, sobre aquele poema antes de saírem de casa. Ponderaram ... e concluíram que as bibliotecas são ambientes maravilhosos, o mais aconchegante dos recintos. Em um sentido quase exotérico, elas permitem o autoconhecimento, a reflexão, a discussão com ideias divergentes e a elevação dos objetivos, uma vez que todo grande literata sabe muito bem que o poder, o mero prazer e a falsa glória valem pouquíssimo, quase nada."

    O cronista e a primeira-dama sabiam muito bem: Terminado o seu período de serviço à nação, o honrado presidente jamais cogitaria voltar para o gabinete presidencial, seu lugar era a biblioteca e a reflexão. Já seus objetivos: a paz e a contemplação.

    Ambos estavam certos, o tempo passou e o casal foi vier em um quase eremitério, isolados de toda aquela atenção. Ali, o entusiasmo e o idealismo voltou! O homem estava restaurado ❤

 
 

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